Notícia de ZEROHORA.com, 05 de dezembro de 2007
Reportagem Especial
Cartéis controlavam 60 mil caça-níqueis
Os seis grupos de exploração de jogos de azar desbaratados pela Polícia Federal (PF) na segunda-feira nos três Estados do Sul controlavam mais de 60 mil máquinas caça-níqueis no Rio Grande do Sul. A estimativa é de policiais que participaram da Operação Oitava Praga. Desencadeada na Serra, na Grande Porto Alegre, no Vale do Sinos e em Curitiba (PR), ela levou à prisão 47 pessoas esta semana. Entre elas, oito policiais civis, dois PMs e um agente federal aposentado.
O nome dos presos é mantido em sigilo, pois a investigação tramita em segredo determinado pela Justiça, a pedido da PF.
Quatro dos 47 presos foram liberados ontem pela Justiça Federal. O pedido foi feito pela PF, em razão de os detidos terem colaborado com as diligências, dando informações sobre a logística dos seis grupos investigados. Os outros 43 suspeitos estão em cadeias do Estado, com prisões temporária e preventiva decretadas.
Cinco pessoas estão foragidas, entre elas um casal de argentinos que liderava o grupo de jogatina ilegal de Curitiba, considerado o mais influente e que distribuía máquinas na Grande Porto Alegre. Os caça-níqueis eram alugados, principalmente para bares da Região Sul, mas também para bingos. A estimativa da PF é que, somados, os seis grupos faturavam R$ 2 milhões por dia.
As seis organizações formavam cartéis independentes, partilhando áreas de influência, no qual o único acordo era não invadir o território do outro. A divisão não era municipal, porque algumas organizações atuavam nas mesmas cidades. Era por áreas dentro do mesmo município. Em alguns casos, o conserto de máquinas era feito em oficinas de uso comum a todos os grupos.
Um único incidente grave teria acontecido em Passo Fundo. Os policiais investigam se o assassinato de um "maquineiro" (dono de máquinas caça-níqueis) naquele município, ocorrido este ano, foi encomendada por um dos cartéis de jogo.
- Os grupos também compartilhavam informações sobre quais policiais poderiam ser corrompidos - afirma o delegado Noerci da Silva Melo, lotado na PF de Caxias do Sul.
Grupos tinham ligação até com o Exterior
O poder econômico dos envolvidos, assim como grau de corrupção dos órgãos da polícia, espantou o delegado. A estimativa é de que os seis grupos dominavam mais da metade do mercado de caça-níqueis no sul do Brasil.
O Ministério Público Estadual estima que, só no Rio Grande do Sul, esse ramo de atividades abrange cerca de 100 mil máquinas. Algumas organizações eram multinacionais. Parte dos grupos atuava no Exterior, com máquinas na Colômbia, Guatemala, Panamá e Paraguai, entre outros.
- Eles investiram muito em imóveis e colocaram bens nas mãos de laranjas - destaca Noerci.
Um dos líderes estava adquirindo uma cobertura avaliada em R$ 2 milhões, em São Gonçalo (RJ). Os agentes apreenderam 73 carros, alguns de luxo, e 30 armas. Pouco mais de R$ 500 mil foram recolhidos entre os pertences dos presos.
Das cerca de mil máquinas apreendidas no Estado, 475 foram em Bento Gonçalves, onde a PF lacrou três depósitos na segunda-feira. Eles pertenciam a três empresários presos da cidade.
Um deles guardavam 250 máquinas apreendidas em 2006 e 2005. Na casa do empresário que capotou uma caminhonete BMW, fugindo da PF, foram apreendidas 30 máquinas.
- Estamos planejando reutilizar e doar os computadores para entidades que precisam e destruir o resto - explica o delegado Mário Vieira.
A PF terá 15 dias, prorrogáveis por igual período, para concluir as investigações. Os agentes ainda deverão ouvir pelo menos 30 pessoas. Não estão descartadas novas prisões ao longo da semana.
( humberto.trezzi@zerohora.com.br daniel.correa@jornalpioneiro.com.br )
HUMBERTO TREZZI E DANIEL CORRÊA
Os seis grupos
Onde eram as sedes e a área de influência das organizações de contraventores desbaratadas pela PF:
Grupo 1 - Curitiba: sede do principal grupo em atuação nos três Estados, liderado por um casal de argentinos. No Rio Grande do Sul, atuava em Caxias do Sul, Canela, Passo Fundo, Taquara, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Canoas, Porto Alegre, Tramandaí e Santana do Livramento.
Grupo 2 - Porto Alegre: além da capital gaúcha, atuava na Região Metropolitana e em Caxias do Sul.
Grupo 3 - Caxias do Sul: além dessa cidade, atuava em Venâncio Aires, Santa Cruz do Sul, Lajeado, Passo Fundo, Marau, São Marcos, Farroupilha, Gramado e Canela.
Grupo 4 - Carlos Barbosa: além dessa cidade serrana, atuava em São Leopoldo, Caxias do Sul, Gramado, Bento Gonçalves, Porto Alegre e Região Metropolitana, Vale do Sinos, Litoral Norte, Butiá, Arroio dos Ratos, Pelotas, Criciúma (SC), Araranguá (SC) e Campinas (SP).
Grupo 5 - Bento Gonçalves: atuava em Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Passo Fundo, Santa Cruz do Sul, Florianópolis (SC), Itapema (SC), Lages (SC) e Palhoça (SC). No Exterior, em Bogotá (Colômbia), Cidade do Panamá (Panamá) e Guatemala.
Grupo 6 - São Leopoldo: era o que mais máquinas concentrava no Rio Grande do Sul. Abastecia o Vale do Sinos, Porto Alegre, Pelotas, Uruguaiana, Rio Grande, além de algumas cidades no Paraná, Argentina e Paraguai.
Fonte: ZEROHORA.com
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